La arqueología de los ingenios azucareros ha aumentado constantemente en los últimos años, agregando información sobre una amplia variedad de temas, como métodos de construcción, avances tecnológicos y de procesamiento, organización social y económica, esclavitud, etc. Aún cuando la organización espacial de los ingenios sea generalmente conocida – casa grande, capilla, molino y vivienda de esclavos (senzala, en portugués) – la persistencia de estas propiedades rurales a través de los siglos torna la interpretación del registro arqueológico un desafío, particularmente en el caso de las senzalas. Aunque las casas grandes, capillas y molinos mantuvieron a menudo funciones relacionadas en cierta medida con sus propósitos originales, las viviendas de esclavos, por general efímeras en su construcción, fueron reconfiguradas o demolidas, especialmente en períodos anteriores. estos procesos posteriores a la depositación de material pueden crear secuencias estratigráficas tan complejas como las de algunos contextos urbanos, generando dificultades para asociar conjuntos de artefactos con la evidencia estructural. en este artículo, presentamos las estructuras visibles y arqueológicas relacionadas con la senzala del sitio arqueológico de Engenho Monjope, en un intento de documentar e interpretar estas características para direccionar futuras excavaciones.
The archaeology of sugar mills (engenhos) has increased steadily over the past several years, adding information on a wide variety of themes, such as construction methods, technological and processing advancements, social and economic organization, slavery and so on. even as the spatial organization of engenhos is generally known – great house, chapel, mill, and enslaved workers’ quarters (senzalas) – the persistence of these rural properties through the centuries makes deciphering the archaeological record a challenge, particularly salient for the senzalas. While great houses, churches and mills often retained functions variously related to their original purposes, senzalas, often ephemeral in construction, were commonly repurposed or razed, particularly in the earlier periods. These post deposition processes can create stratigraphic sequences as complex as those in some urban contexts, creating difficulties in associating artifact assemblages with structural evidence. In this article, we present the visible and archaeological structures related to the senzala at the Engenho Monjope archaeological site in the attempt to document and interpret these features for future excavations.
A arqueologia dos engenhos de açúcar tem aumentado continuamente nos últimos anos, acrescentando informações sobre os mais diversos temas, como métodos construtivos, avanços tecnológicos e de processamento, organização social e econômica, escravidão etc. Embora a organização espacial dos engenhos seja geralmente conhecida – casa grande, capela, moenda e senzala – a persistência dessas propriedades rurais ao longo dos séculos torna a interpretação do registro arqueológico um desafio, particularmente saliente para as senzalas. Embora as casas grande, igrejas e moendas muitas vezes mantivessem funções relacionadas em alguma medida com seus propósitos originais, as senzalas, frequentemente efêmeras na sua construção, eram reconfiguradas ou demolidas, especialmente em períodos recuados. esses processos pós-deposicionais podem criar sequências estratigráficas tão complexas quanto aquelas em contextos urbanos, criando dificuldades na associação de conjuntos de artefatos com evidências estruturais. Neste artigo, apresentamos as estruturas visíveis e arqueológicas relacionadas à senzala no sítio arqueológico Engenho Monjope, na tentativa de documentar e interpretar essas características para orientar futuras escavações.
O estudo arqueológico sobre as propriedades rurais no âmbito da arquitetura, espacialidade, funcionalidade e sistemas construtivos das edificações de engenhos é um desafio. São exaustivas as descrições e classificações das edificações que compõem um engenho, geralmente de forma isolada, fato observado nas considerações de Geraldo Gomes (1998). Porém, são vagas as referências e descrições sobre as técnicas e sistemas construtivos utilizados à época das fazendas e engenhos coloniais, principalmente no que se refere às senzalas. É de inquietar como, em um relativo curto espaço de tempo, a quantidade de informação histórica, tecnológica e arquitetônica que se perde, fazendo existir enormes lacunas e interrogações sobre como se construiu, modificou e funcionou determinado espaço.
O Engenho Monjope se localiza no Município de Igarassu, no estado de Pernambuco, Brasil (Figura 1), e apresenta todas as edificações (definidas por Gomes, 1998) que compõe um engenho produtor de açúcar: casa grande, capela, moita e senzala (Figura 2). Além dessas estruturas, há evidências em superfície da existência de outras edificações entre a casa grande e moita, porém sem funções conhecidas. Representa um dos poucos engenhos localizado no estado de Pernambuco que ainda mantém todas principais edificações, mesmo que em estado crítico de conservação. Por esse privilégio, possui um grande potencial em oferecer informações sobre o funcionamento e dinâmica de um engenho de açúcar, desde abordagens tecnológicas a temas sobre o cotidiano de trabalhadores escravizados.
As primeiras menções escritas acerca do Engenho Monjope surgiram por volta de 1600, em um documento de doação de terras, conhecidas na época como Tajepe, aos Jesuítas do Colégio de Olinda (Barrêto, 2009). No primeiro momento, a área servia como uma fazenda dos Jesuítas até a invasão dos holandeses, sendo utilizada para plantações de subsistência ou a criação de gado (mesquita, 2005). num documento apresentado à Câmara de Amsterdã em 1640, Adriaen van der Dussen delineia uma lista dos engenhos de Igarassu e seus respectivos donos e nela não há referências ao Monjope. Curiosamente, apenas 26 anos mais tarde, em 1666, uma década após a expulsão dos Holandeses, o Monjope foi tido como o mais famoso dos engenhos dos Jesuítas, então habitado pelo padre Guilherme Lynch (mesquita, 2005).
Entre 1679 e 1701, o Engenho Monjope era residência autônoma, contando com cerca de cem trabalhadores escravizados, também sendo caracterizado como grande produtor de milho, mandioca e legumes. Até a virada do século XVIII, já existiam a casa grande, uma igreja, a fábrica e a olaria e, se supõe, as senzalas para abrigar os trabalhadores.
No decorrer dos séculos XVIII e XIX, o Engenho passava pelos fluxos e refluxos de uma propriedade rural voltada à economia açucareira. Em 1722, o engenho apresentou uma baixa produtividade em relação às expectativas, sendo necessário investimentos, como em 1732, na reforma da fábrica do engenho (matos, 2009) que levou a um alto nível de produção no ano de 1742, permitindo que o Monjope seja o único engenho do Colégio de Olinda. Com a expulsão dos Jesuítas, determinada pelas Cartas Régias de 23 de agosto de 1759 e 22 de outubro de 1761, ficou acordado que os bens da Companhia de Jesus fossem entregues à tesouraria geral da Capitania em 2 de janeiro de 1770. Posteriormente, esses bens, incluído o Monjope, foram vendidos.


Entre 1679 e 1701, o Engenho Monjope era residência autônoma, contando com cerca de cem trabalhadores escravizados, também sendo caracterizado como grande produtor de milho, mandioca e legumes. Até a virada do século XVIII, já existiam a casa grande, uma igreja, a fábrica e a olaria e, se supõe, as senzalas para abrigar os trabalhadores.
No decorrer dos séculos XVIII e XIX, o Engenho passava pelos fluxos e refluxos de uma propriedade rural voltada à economia açucareira. Em 1722, o engenho apresentou uma baixa produtividade em relação às expectativas, sendo necessário investimentos, como em 1732, na reforma da fábrica do Engenho (Matos, 2009) que levou a um alto nível de produção no ano de 1742, permitindo que o Monjope seja o único engenho do Colégio de Olinda. Com a expulsão dos Jesuítas, determinada pelas Cartas Régias de 23 de agosto de 1759 e 22 de outubro de 1761, ficou acordado que os bens da Companhia de Jesus fossem entregues à tesouraria geral da Capitania em 2 de janeiro de 1770. Posteriormente, esses bens, incluído o Monjope, foram vendidos.
O comprador do Engenho Monjope foi o Capitão Manoel Cavalcanti de Albuquerque, que já residia no engenho em 1785 e permaneceu lá até sua morte em 12 de abril de 1812. Seu sucessor e irmão, Coronel Cristóvão de Holanda Cavalcanti de Albuquerque, ampliou as dimensões do engenho em 18 de setembro de 1818 a partir da compra da propriedade Utinga do Peró. Seu herdeiro foi João Cavalcanti de Albuquerque, o mais velho dos seus nove filhos, e relata-se que no período de 1829 o engenho possuía 114 escravos (Barrêto, 2009).
O cenário do século XIX no Engenho Monjope foi tumultuoso, a julgar pelas constantes trocas da propriedade em contextos de intrigas políticas, como a sua função como base contra a Revolução Praieira (Mesquita, 2005) e subsequente fuga de um dos proprietários para Portugal. Mesmo assim, o Engenho parece ter abrigado entre 80 e 120 trabalhadores escravizados durante esse período que certamente teve implicações para a manutenção e reforma da senzala. Em 1890 a propriedade teria sido hipotecada à Companhia do Beberibe com a finalidade de instalar no engenho um serviço de captação de água para a cidade do Recife, mas logo essa companhia perdeu o local. Esse evento iniciou mais de uma década de decadência, sendo o engenho colocado para leilão em diversas ocasiões, porém sem interessados de adquirir a propriedade (Mesquita, 2005).
O Engenho Monjope foi comprado em 1905, por Vicente Antônio Novelino que iniciou várias intervenções, entre elas a recuperação da roda de ferro e a construção de tanques elevados de água, aproveitando o canal de abastecimento anterior, para garantir a chegada da água na roda. Os filhos de Vicente Novelino viviam no Engenho Monjope: a senzala habitada pelo Vicente Jr. e seu irmão Artur, e a casa grande pelo outro irmão, Humberto. Consta que o engenho ainda produzia açúcar em 1925, mas já havia parado em 1940, quando se dedicou exclusivamente à produção da aguardente Monjopina.
Em 1962, instalou-se um Camping Clube que levou à realização de reformas e adequações do engenho para fins turísticas e sociais. A moita foi adaptada para utilização como restaurante, cantina e salão de jogos. Na senzala foram instalados banheiros, quartos, lavanderias e lava pratos, e o sistema hidráulico foi utilizado para piscinas e ‘bicas’. Junto com essas reformas e adaptações foi um projeto paisagístico, com caminhos, iluminação e flora. As atividades do Camping duraram aproximadamente 30 anos sendo o Monjope alvo de processo de tombamento patrimonial em nível Estadual.
Pesquisas arqueológicas realizadas no Engenho Monjope nos arredores da senzala revelaram um registro arqueológico que reflete séculos de modificações, alguns conhecidas historicamente, outras se apresentando como enigmas. No decorrer das escavações, se percebeu que os processos de pós-deposição resultaram em sequências estratigráficas tão complexas quanto aquelas em alguns contextos urbanos, criando dificuldades em associar pacotes sedimentares, materiais arqueológicos e as evidências estruturais. Como em qualquer estudo arqueológico em contextos arquitetônicos, é imprescindível que a sequência de construção e as relações entre elementos estruturais sejam descritos e interpretados de forma a possibilitar interpretações. O que interessa para o presente estudo são justamente as diversas intervenções ocorridas no Engenho Monjope que teriam efeitos diretos ou indiretos na senzala e arredores. Trata-se de apenas uma pequena fatia das análises e intepretações em andamento sobre esse sítio.
A estrutura que servia como a senzala do Engenho Monjope localizase à esquerda do acesso principal atual do Engenho (Figura 2). Como é de padrão para engenhos no Nordeste (Gomes, 1998), todas as demais estruturas se situam em posições privilegiadas facilitando a visão da senzala de diversos ângulos: a casa-grande e a capela mais elevadas à esquerda e a casa do capitão-do-mato ou capataz bem na sua frente. Vale adiantar que a construção dos tanques de abastecimento de água por volta do ano 1905 (compra do Engenho pela primeira geração da família Novelino) efetivamente alterou a paisagem quanto ao alcance ocular da senzala desde a casa grande, efetivamente eliminando-a da paisagem. Nessa seção, se apresentam as diversas estruturas existentes (inteiramente ou em ruínas) e as escavadas nos arredores da senzala.
O levantamento arquitetônico da senzala existente objetivava fornecer dados comparativos para elementos estruturais revelados no decorrer das escavações, bem como documentar sequências construtivas no decorrer do tempo. Registrou se todas as estruturas visíveis da senzala e para a vetorização dos dados espaciais, foram retiradas medidas construindo uma base gráfica que serviu de instrumento tanto para o registro quanto análise dos dados subsequente (veja Rocha 2013 e 2015 para uma discussão ampla do estudo arquitetônico). Os resultados desse levantamento e cruzamento de dados foram pranchas digitalizadas, nos programas AutoCAD e ArcGis, contendo planta baixa, corte e fachadas, com identificação de materiais construtivos, espessura das paredes/ alvenaria e composição do revestimento do piso (figura 3, 4 y 5).
A senzala se configura como o tipo pavilhão (Slenes, 1999), sendo edificação comum para abrigar os trabalhadores escravizados desde o século XIX (Rocha, 2015). Como ficará aparente mais adiante, não temos informações ainda sobre a senzala, ou as senzalas, no período dos Jesuítas.



As ruínas de um pórtico localizado poucos metros ao sudoeste da senzala, antes do canal, têm sido objeto de muita especulação. Existem os remanescentes de outro pórtico ao sul da capela, sugerindo uma ligação entre os dois, ou mais uma entrada ao engenho. Ressaltamos que esse outro pórtico não faz parte dessa discussão focada nos arredores da senzala. Não formam localizados registros documentais ou orais que pudessem levar a alguma interpretação funcional, tipológica e contextual dos pórticos (figura 6).

Percebe-se nas imagens acima que o pórtico se situa atualmente antes e abaixo do tanque/piscina e ao sul (direita) da senzala. Mais adiante será discutida as implicações desse posicionamento para questões cronológicas.
O Projeto Arqueológico Monjope foi elaborado especificamente para atender as necessidades didáticas de métodos e técnicas de pesquisa em Arqueologia Histórica, inclusive visando subsidiar projetos de conclusão no nível de graduação, mestrado e doutorado1.
O problema norteador da pesquisa foi obter dados sobre a vida cotidiana das mulheres e homens que moravam e trabalhavam no engenho, salientemente os trabalhadores escravizados. A pesquisa esteve direcionada para a compreensão dos contextos socioculturais em sucessivos momentos históricos, desde o período de fundação das primeiras estruturas e início de atividades econômicas, até a emancipação e posterior uso dos espaços do sítio. Buscou-se encontrar artefatos e vestígios em contextos que permitissem a compreensão de aspectos sociais dos habitantes, seus hábitos, costumes, áreas de lazer, e assim por diante.
Partimos do pressuposto de que pessoas que vivem vigiadas constantemente desenvolvem suas atividades de lazer e porventura ritualísticas em áreas reservadas. Escondido dos olhares daqueles que os vigiam, esses atores sociais mantiveram seus hábitos em lugares específicos, como por exemplo, em locais fora de vigilância e controle direta, tal como proposto por Singleton (2001) em seu estudo sobre plantations cubanas. Assim sendo, todas as intervenções arqueológicas realizadas se focaram nos arredores da senzala atual, denominado Setor A.
As primeiras intervenções se concentraram na área atrás da senzala que é voltada para a mata e em pontos que se supõe serviam como entradas aos espaços interiores. Seria um local onde os habitantes da senzala conseguiriam realizar atividades longe dos olhares dos senhores e capatazes. Vale salientar que, com posterior levantamento e análise da estrutura da senzala, as áreas de circulação provavelmente eram bem diferentes. Além do mais, com o passar de cada temporada, ficou evidente que a instalação e operação do Camping Clube alterou de forma significante a estratigrafia, revelando diversas fossas, canos de pvc, depósitos de materiais construtivos e assim por diante.
Ao evidenciar o que parece ser um sistema de drenagem, confeccionado por tijolos batidos, por trás da senzala, chegando ao extremo oeste dela, as escavações foram redirecionadas e objetivos repensados. Ficou evidente que revelar pacotes estratigráficos sedimentares (bolsões de descarte, por exemplo) que pudessem ser atribuídos a atividades cotidianas não seria uma tarefa muito frutífera. Em contexto didático, foi imprescindível otimizar o tempo limitado em campo, enquanto fornecer uma experiência proveitosa para a formação de alunos.
As fotografias históricas do Engenho Monjope trazem informações espaciais que guiaram em parte as escavações iniciais. Numa foto de 1937 (Figura 7), por exemplo, percebe-se a senzala à esquerda na mesma situação de hoje, com os tanques de água no terreno elevado que corre de esquerda para a direita da foto. Similarmente, outra foto (Figura 8) provavelmente da década 1950 ou 60, reproduz essa mesma situação.
O motivo de destacar essas duas imagens, a mais antiga sendo de 83 anos atrás, é que não apontam a nenhuma outra estrutura no lado oeste da senzala, nem em pé nem arruinada. Mesmo assim, o redirecionamento das escavações revelou uma quantidade e diversidade expressiva de construções (Figura 9).
A área oeste da senzala foi aterrada aparentemente no momento da reforma do canal de água resultando na construção dos tanques na primeira década do século XX (Figura 10). Essa inferência se deve à ausência de ruinas nas fotografias históricas. A área teve seu último aterro provavelmente como parte do projeto paisagístico na reforma do engenho para servir como Camping Clube. A estratigrafia mostra diversas camadas de materiais sedimentais variados, inclusive aterros anteriores. Há um forte indicativo de que os aterros tenham sido programados pois existem camadas regulares na extensão das áreas escavadas.


As diversas componentes arquitetônicas foram plotadas e georreferenciadas de acordo com a malha de escavação (Figura 11), e ficou evidente que algumas são relacionadas com a senzala existente enquanto outras fogem de uma lógica aparente. As projeções da varanda e paredes/ alicerces externos deixaram claro que algumas estruturas se trata de uma antiga parte da senzala, não mencionada em documentos históricos ou representada em nenhuma fotografia ou ilustração. Tal revelação levou imediatamente à necessidade de determinar a extensão dessa estrutura.


Visando fornecer contextos espaciais às estruturas evidenciadas e de direcionar futuras escavações, particularmente quanto à dimensão original da senzala, se realizou prospecção geofísica por Ground Penetrating Radar (GPR, ou georadar em diante) (veja Allen 2020, para a metodologia e resultados detalhados).
Os resultados obtidos nos radargramas ao oeste e noroeste da senzala atual confirmaram que a existência de fundações e divisões internas de uma antiga parte da senzala, e trouxeram informações não esperadas. Conforme as projeções das fundações, os radargramas indicaram que a parede externa que delimita a senzala antiga se situa em aproximadamente 15 metros além da parede atual. Além disso, detectouse quatro alvos que, após averiguação, confirmaram ser pilares iguais àquele escavado anteriormente (discutido abaixo) (Figura 12).


Uma edificação analisada de forma individual ou coletiva, apresenta em sua trajetória, modificações tipológicas e funcionais que atendam as necessidades de cada época. Assim, um conjunto formado pelas edificações que caracterizam o engenho de açúcar passa a exibir assimetrias e adaptações frente a um modelo rígido pré-definido, podendo apresentar outras estruturas edificadas e não documentadas em seus diferentes contextos funcionais e sociais.
No intuito de compreender o contexto das novas estruturas escavadas no Engenho Monjope, adotaram-se diversos conceitos e métodos de análise contextual, tipológica e tecnológica diante das estruturas edificadas visíveis (senzala, pórtico, tanques de abastecimento etc.). Foi observado a disposição vertical dos elementos de forma a identificar seus materiais e técnicas construtivas. Já plano horizontal, atentou-se para o agenciamento (disposição) e possíveis relações entre si.
Para o ordenamento dos dados, procurou-se delimitar e definir as estruturas arquitetônicas nas imediações da senzala, distinguindo, quando possível, as diversas intervenções ou momentos de ocupações/ reformas ao longo de sua existência. De forma a simplificar a análise, as estruturas arquitetônicas foram designadas individualmente, por aparentemente serem independentes (Figura 13).

Para interpretação foi considerado a organização horizontal dos elementos (em vista), o posicionamento/ disposição entre os materiais e seu estado/integridade (pedaços ou inteiros). Observando requisitos como alinhamento, nivelamento, composição, técnica utilizada, o conjunto de estruturas poderia representar as seguintes funções: estrutural (fundações, pilares, vigamentos etc.), de vedação (paredes) ou de composição/acabamento (soleiras, molduras, rodapés, etc.).
Os materiais construtivos analisados foram em sua maioria tijolos cerâmicos (maciços), e em menor número, a cantaria (pedra) e reboco, sendo observadas características externas como dimensão, cor e aparência (maciço, vazado, arestas etc.). A cor do tijolo foi um dado complementar, não exigindo um grau de rigor maior na sua determinação.
A estrutura que apresentou estar mais próxima da forma natural de solo (sem apresentar material arqueológico – “aterro limpo”), foi a Estrutura 1- descrita como alicerce de pilar, e foi provavelmente a partir desse nível que se iniciou a movimentação de terra (aterros controlados). A sua argamassa não aparentava componentes modernos como cimento ou concreto, e em seu arranjo há um padrão no agenciamento e posicionamento dos tijolos, semelhante ao tipo de fundação de pilar. Sua descrição se repete para os demais pilares escavados após prospecção por GPR.
A Estrutura 2 apresenta material construtivo em uma variedade de tijolos cerâmicos, tanto em relação às suas dimensões quanto à coloração. As dimensões variam entre 25 e 30 cm de comprimento, 10 e 15 cm de profundidade, e 4 e 7 cm de espessura. Independentemente do tijolo utilizado, percebe-se a intenção do agenciamento alinhado, onde em um dos lados aparenta ser uma fiada de amarração, a contenção do piso que se assentou. A partir da estratigrafia, concluiu-se que os tijolos foram assentados acima de sedimento sem escavação de vala, e até mesmo por apresentar apenas uma fiada de tijolos. Aparentemente está fora de contexto com as Estruturas 1 e 3.
A Estrutura 3 se apresenta desalinhada às estruturas vizinhas 2 e 4. É composta por tijolos cerâmicos maciços de aproximadamente 30x15x6~7 cm (Comprimento x Largura x Altura), apresentando algumas fragmentações (entre inteiros e fragmentados). As duas primeiras fiadas visíveis apresentam os tijolos em uma direção/orientação, sendo a última sobreposta, posicionada de forma perpendicular ao agenciamento abaixo dela. Inicialmente, se remete à estrutura como algum tipo de fundação, contudo, não se notou presença de argamassa, parecendo os tijolos terem sido apenas posicionados de forma a conter ou separar o espaço. Não foram evidenciados acúmulo de material construtivo acima da estrutura de forma conglomerada ou não, o que pudesse indicar continuação de alvenaria de vedação (paredes). Não foram identificados materiais do tipo rocha/cantaria.
A Estrutura 4 apresenta materiais construtivos (tijolos) semelhantes à Estrutura 1, além do aparente alinhamento/orientação dos demais fundações de pilares em perpendicular. As Estruturas 2 e 3 apresentamse independentes entre si e, também, das Estruturas 1 e 4, incluindo os aterros que as encobrem. Ainda na Estrutura 4 (Figura 14), acima do alicerce (UE 66), encontrava-se conglomerado de fragmentos de tijolos, unidos por argamassa de areia e cal. O entulhamento de restos construtivos se repetiu em outras partes do Engenho, como por exemplo, em alvenaria da casa-grande, afirmando assim, a presença de alvenaria de vedação acima da fundação.
A Estrutura 4 apresenta orientação dos alicerces idênticas às da edificação atual da senzala, confirmando que ela ter feito parte da antiga senzala. Na tentativa de comparar materiais e técnicas, houve a abertura de quadrículas dentro de um dos cômodos (Figura 15) que apresentava evidências de piso de tijolos cerâmicos, além de vestígio de fundação de parede em taipal.
Percebeu-se a falta de semelhança entre a Estrutura 4 e a encontrada no cômodo interno da senzala. As dimensões dos tijolos cerâmicos que compõem piso e alicerce do cômodo medem 25x10x5 centímetros, menores que os da Estrutura 4, além de apresentarem cimento como argamassa, sendo a argamassa da Estrutura 4 composta por areia e cal.
Anterior à prospecção geofísica, escavações pontuais verificaram que a UE97b (baldrame) e a UE66 (baldrame paralelo à cantaria) apresentam cotas altimétricas com apenas 3cm de diferença, considerada aceitável para fundações em mesmo nível (Figura 16). Tendo em vista essa aparente diferença de técnicas observadas dentro da senzala atual, e a compatibilidade do conjunto de UEs que compõem a Estrutura 4, a mesma passou a ser designada como a ‘Velha Senzala’.



Averiguação de uma porção dos alvos lineares mostrados na Figura 12 confirmou a padronização das técnicas e materiais da Estrutura 4, assim permitindo fixar o extremo oeste da velha senzala em aproximadamente 15 metros da atual. Além do mais, a quina sudoeste da estrutura revelou que o pórtico, através de um muro ou mureta, estava ligado à velha senzala.
Preservados de forma parcial, os remanescentes do Engenho Monjope sofreram diversas intervenções e alterações advindas dos novos hábitos dos diferentes proprietários e necessidades de cada época.
De forma geral, o agenciamento de seus edifícios (posicionamento no espaço) apresenta-se de forma racional, determinado através do fluxo de atividades e questões hierárquicas. A reutilização, modificação e até o descarte funcional e/ou estético de um determinado edifício deve se apresentar de diversas formas e dimensões, podendo ser algo pontual em apenas alguns espaços ou em sua totalidade, mudando por completo sua disposição e fim iniciais.
O programa arquitetônico3 modifica-se no tempo segundo as novas necessidades criadas pelas habitantes e usuários desses lugares. Assim, abordamos o espaço arquitetônico como um conjunto de atividades sociais e funcionais nele exercido, uma visão que visa permitir a ‘reconstrução’ da senzala do Engenho Monjope em seus diversos momentos históricos.
Supõe-se que as atividades expressas nos espaços da senzala dialogam com as modificações e usos do Engenho Monjope no decorrer dos séculos. Uma vez desvendada essa narrativa construtiva, subsequentes interpretações poderão aprofundar sobre as personagens que conviviam nesse espaço.
Observa-se, através dos dados, a remodelação do espaço da edificação existente da senzala de acordo com as necessidades de organização e apresentação físicas do edifício relacionadas ao processo de ocupação e reocupação da propriedade. Inicialmente construída para os trabalhadores escravizados, posteriormente ocupada pelo filho de Vicente Novelino e seu irmão, e por fim quartos, banheiros e lavanderias do Camping Club.
As documentações textuais, iconográficas e até mesmo orais acerca da espacialidade, edificações e tecnologias utilizadas nos primeiros séculos no Engenho Monjope são breves ou simplesmente inexistem.
Não é de surpreender que dentro desse contexto não há nenhum registro detalhado que apresenta as características físicas da senzala antes da instalação do Camping Club.
As estruturas encontradas e detalhadas na seção anterior permitem, através de análise dos materiais e técnicas de construção, identificar alguns momentos distintos de intervenção na edificação e em como a paisagem foi modificada para atender seus diversos usos e atribuições.
Consideramos essa ponderação como passo imprescindível tanto na formulação de novas questões para a pesquisa, quanto ao direcionamento e estratégias de escavação.
Quando o Monjope começou a produzir açúcar na época dos Jesuítas, já existiam aproximadamente 100 trabalhadores escravizados, quantidade que permanecia relativamente estável até a segunda metade do século XIX. De 1759 em seguinte, o engenho passou por diversos proprietários e as mudanças estruturais e funcionais ocorreram frente a diferentes necessidades. A partir do final do século XIX, o engenho, e por extensão a senzala, sofreu uma aceleração de mudanças nas esferas econômicas, políticas e sociais, todas com influência na paisagem do local.
Sobre as intervenções arqueologicamente visíveis realizadas no Engenho Monjope na área da senzala, as que seguem se destacam:
A edificação da senzala no local atual tem sua tipologia representada nos engenhos desde o final século XVIII (Gomes, 1998), sendo o mais comum a partir do século XIX (Rocha, 2015). Apesar de não haver referências específicas sobre a morada dos trabalhadores escravizados no Monjope, Manuel Cavalcanti de Albuquerque passou a compor suas cartas com o termo “Engenho Novo de Monjope” (no período de 1810 a 1831), indicando um processo de reforma que argumentamos ter contemplado a senzala4. Comprado em 1785 pelos Cavalcanti de Albuquerque, o engenho foi reformado antes de 1811, pois havia uma indicação do mestre de obras para realizar uma reforma da Câmara e Cadeia de Igarassu nesse ano, tendo já prestado serviços no Monjope (Araújo, 2015). Um documento da época faz referência à doação de materiais construtivos, provavelmente fruto de sobras das reformas. Ainda mais, no inventário de Cristóvão de Holanda Cavalcanti Albuquerque, em 1829, há as primeiras (e únicas) referências de uma senzala de pedra e cal, ou seja, de aspecto mais salubre e sólido do que taipa (Barreto, 2009). Dessa forma, é plausível que a atual senzala, mais os 15 metros da velha senzala descoberta arqueologicamente, se compôs essa senzala de ‘pedra e cal’ de 1829.
Por serem construções precárias, como descreveu o engenheiro Vauthier, “desmoronando aqui e acolá” (1975, p. 79), senzalas necessitavam de reparos constantes, e parece que a velha senzala não foi incluída em reformas substanciais subsequentes às do início do século XIX, e certamente abandonada antes da compra do engenho pela família Novelino em 1905. A presença da cantaria (Figura 9) parece ser um aproveitamento de material construtivo, pois serviria como degrau para entrada em um dos compartimentos da velha senzala.
O abandono da velha senzala, seja que for o motivo, promete ser de grande proveito para as investigações sobre o cotidiano dos trabalhadores escravizados iniciadas ao começar o Projeto Arqueológico Monjope.
Diferentemente das áreas escavadas por trás da senzala ao começar a pesquisa, a velha senzala foi poupada das intervenções profundas na adequação da estrutura para o Camping Club. Ainda mais, ao invés de ser escavada para a reforma do canal, mais especificamente a instalação dos tanques e piscinas, as ruínas e áreas adjacentes foram aterradas, efetivamente preservando os contextos estratigráficos, ou assim que se espera.
O canal que desvia o Rio Utinga para mover a moenda d’água provavelmente se tratava de uma obra de proporção significante, porém que não teve, necessariamente, influência na espacialidade original das estruturas do engenho, inclusive na senzala. O Engenho Monjope era um engenho real, que, por definição, era movida à água ainda no século XVIII. Mais adiante, porém, na reforma no início do século XX, houve a aparente necessidade da recuperação do canal a fim de garantir o fornecimento de água e que envolvia também a reforma da roda.
Mesquita (2005) afirma que nesse momento foram construídos os tanques de água, posteriormente aproveitando-os como piscinas do Camping Clube. Infelizmente, não temos informações nesse momento se esses tanques tiveram funções tecnológicas apenas, ou também satisfizeram gostos estéticos e funções sociais dos proprietários. Seja que for, a sua construção necessitou a realização de um aterro para elevar o nível do canal em relação à roda, deixando a Casa Grande abaixo do nível do canal, ofuscando a vista da senzala, pelo menos do primeiro pavimento.
Especula-se que esse rompimento do padrão de vigência, elemento muito presente em engenhos, se fazia desnecessária depois da emancipação, efetivamente separando a área dos trabalhadores dos proprietários, afirmando mesmo assim a hierarquia.
As obras realizadas para a elevação dos tanques de água descaracterizaram o relevo do terreno, efetivamente anulando também a função original do pórtico (de passagem), que teria sido construído no início do século XIX. Remetemos, novamente, às grandes reformas realizadas pelos Albuquerque. O século XIX era uma época de auge social e político do Engenho Monjope, sendo inclusive uma parada pelo Imperador Dom Pedro II em 1859 na sua visita em Pernambuco. Um pórtico (ou dois, no caso) teria sido um elemento paisagístico que marcava uma fronteira simbólica (Figura 17) dos espaços do engenho.

Apesar de não termos ainda uma explicação plausível para a existência do ‘pátio’ (Estrutura 2) e a Estrutura 3, o pórtico em contexto com demais estruturas chama muita atenção quanto à organização social do espaço. A existência de um muro ou mureta entre a quina da velha senzala e o pórtico serviu como um impedimento visual dos fundos da senzala de quem olhasse pela Capela ou Casa Grande. Projeções hipotéticas entre os quatro pilares (seis se conta os dois alvos geofísicos não escavados), a velha senzala e o pórtico revelam uma relação espacial paralela e perpendicular. Assim, o posicionamento do pórtico ofereceria uma ligação com os pilares em forma de muro, que possivelmente seria uma ‘continuação’ dele, empregando a parede extrema da velha senzala como parte da estrutural mural. Desta forma, curiosamente de ponto de vista de vigilância, separam-se os espaços do senhor e dos trabalhadores.
Considerando a disposição espacial, o pórtico em ruínas representaria um acesso em que a senzala estaria localizada “fora” da visão5 do senhor (ao longo do século XIX, se não antes) e seus visitantes.
Contudo, seriam os “fundos” da senzala às vistas de quem chegava ao engenho? Esses “fundos” utilizados pelos próprios trabalhadores escravizados como espaço de convivência e até mesmo área destinada aos dejetos? Alternativamente, as bases dos pilares podem ser associadas a estruturas do século XVII e XVIII, mas necessita de escavações mais amplas para averiguar todas as possibilidades.
O intuito desse breve mergulho nas evidências arquitetônicas existentes no Engenho Monjope foi oferecer intepretações das estruturas até o momento descobertas para que possamos: 1) direcionar escavações futuras, abordando as atividades cotidianas dos habitantes da senzala e, 2) reconstruir uma pequena parte da paisagem do engenho para poder compreender, de forma crítica, os discursos paisagísticos ocorridos ao longo do tempo. É um processo interpretativo em construção e modificação constante, pois cada temporada traz elementos que requer que repensamos as nossas conclusões.
A configuração do espaço revela-se de acordo com o contexto histórico e social, podendo ser observado e descrito através de suas formas, tipologias e configuração no meio edificado. Porém a leitura de uma determinada fase da edificação não é completa sem o entendimento do contexto social em qual esteve inserida. Sentimos nesse sentido grande falta de informações mais contextuais dos indivíduos que viviam nesse espaço. Como é de esperar, as diversas transformações à paisagem construída realizadas no decorrer dos séculos no Engenho Monjope se revelam atualmente como um verdadeiro quebra-cabeça de elementos arquitetônicos. Ao analisar a composição do material coletado nas escavações na área de estudo, percebe-se a dificuldade em chegar a uma equação precisa sobre o período em que as estruturas estariam inseridas, além relações acerca sua funcionalidade. Mesmo assim, com a continuação da pesquisa, acreditamos que vão se revelar diversas histórias dos habitantes da senzala do Engenho Monjope.
1. Métodos e Técnicas Arqueológicas III do Curso de Graduação em Arqueologia e Técnicas de Pesquisa Arqueológica 2 do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco.
2. Percebe-se no decorrer do texto o uso do termo, unidade estratigráfica (UE), que se refere aos contextos estratigráficos individuais observados no momento da escavação.
A interpretação contextual das UEs não se equivale, necessariamente, a uma única UE.
Por exemplo, na Figura 9 a UE89 e UE66 fazem parte da Estrutura 4, enquanto a UE69 é a única que forma a Estrutura.
3. Programa arquitetônico, ou programa de necessidades, é o conjunto sistematizado de necessidades para um determinado uso de uma edificação-espaço, definido de acordo com o conjunto de atividades sociais e funcionais. Geralmente é desenvolvido nas fases iniciais do projeto a fim de nortear as decisões determinantes do projeto, juntamente com as necessidades sociais e funcionais de um grupo ou indivíduo.
4. Cartas do Registro de Actos do Conselho da Comarca de Igarassu – 1810-1831, Arquivo Público Estadual Lordão Emereciano.
5. De acordo com Laborie (1798), “as casas [...] devem ser de maneira situadas, que possa o senhor ver tudo, ouvir e dar ordem. A exação, e cuidado da manufatura, o serviço do hospital, que se deve guardar de dia, e de noite, a polícia das senzalas, e o cuidado do gado de toda a casta, inteiramente dependem da presença e vigilância do senhor” (Laborie apud Marquese, 2005, p.170). Logo, o posicionamento das unidades habitacionais escravas em pavilhões únicos, retilíneos, simétricos e em torno de um pátio, tinha o propósito de potencializar o controle senhorial sobre a morada dos cativos (Marquese, 2005).
Os autores agradecem o apoio do Departamento de Arqueologia de UFPE, o Núcleo de Ensino e Pesquisa Arqueológico (NEPA) da Universidade Federal de Alagoas, a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq (processos 112836/2015-1 e 308144/2016-3). As pesquisas arqueológicas no Engenho Monjope só foram possíveis com a valiosa participação dos alunos de graduação e pós-graduação do Departamento de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco.
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