Revista de Arqueología Histórica Argentina y Latinoamericana
Vol. 18, Núm. 2, julio - diciembre 2024. ISSN 2344-9918
Asociación de Arqueólogos Profesionales de la República Argentina
Editorial

NOTA EDITORIAL

CARTA DOS EDITORES

Perspectivas recentes em arqueologia histórica do conflito no México

Este dossiê reúne quatro pesquisas que representam avanços recentes no campo da arqueologia histórica no México, mas com a singularidade de fazê-lo a partir da perspectiva da arqueologia do conflito e da arqueologia dos campos de batalha. Combinando diferentes perspectivas teóricas e metodológicas, os trabalhos aqui compilados abordam episódios bélicos que se estendem desde a conquista do Ocidente no período colonial (1521-1820) até as guerras do século XIX e os confrontos da Revolução Mexicana. Por meio da análise de paisagens fortificadas, campos de batalha, dispositivos defensivos e vestígios materiais do confronto, tais estudos evidenciam que o conflito não apenas deixou marcas físicas no território, mas também configurou formas de controle, resistência e memória ao longo do tempo.

Nas últimas décadas, a arqueologia histórica no México tem experimentado uma notável expansão em seus objetos de estudo, metodologias e enfoques interpretativos. De grande relevância acadêmica têm sido as pesquisas sobre as dinâmicas conventuais, interações entre diferentes identidades étnicas, bem como sobre processos tecnológicos e sociais da produção cerâmica, entre outros temas. Todavia, persistem desafios significativos: a necessidade de continuar fortalecendo suas agendas próprias, enriquecer os diálogos com outras regiões da América Latina e articular-se com debates globais acerca do patrimônio, do conflito e das formas de construção, transmissão e disputa das narrativas sobre o passado. Este dossiê propõe-se a contribuir para essas discussões ao dar visibilidade a investigações que, situadas em diferentes períodos históricos e regiões do país, compartilham a preocupação de compreender como a guerra e a violência se inscrevem materialmente no espaço e na experiência histórica.

Enquadrado no início do período colonial, o artigo de Angélica María Medrano Enríquez examina a Guerra do Mixtón (1541–1542), um dos mais significativos levantes indígenas do século XVI, protagonizado pelos povos originários do Ocidente novohispano contra o avanço militar da Coroa espanhola. A partir de uma abordagem transdisciplinar que integra arqueologia, história e análise espacial, a autora reconstrói o contexto geográfico, político e simbólico do conflito, com especial atenção ao papel do território como cenário estratégico de resistência. Ao cruzar fontes coloniais, cartografia histórica e exploração arqueológica, o estudo identifica sítios-chave e propõe novas hipóteses de localização para outros espaços onde o conflito se desenvolveu, como o Peñol de Coina ou o próprio Mixtón. A pesquisa, em conjunto, problematiza as narrativas coloniais da guerra sob uma perspectiva crítica e descentralizada.

O artigo de Alonso Pérez Juárez oferece um estudo histórico-arqueológico da arquitetura militar em Monterrey durante a Guerra de Intervenção Estadunidense (1846– 1848). A partir da análise de fontes documentais, planos arquitetônicos, cartografia histórica e um rigoroso trabalho de campo, o autor examina a disposição, as funções e a materialidade das edificações militares construídas ou adaptadas pelo exército mexicano no contexto do conflito. A investigação demonstra que tais estruturas não foram improvisadas, mas resultaram de conhecimento técnico preciso dos princípios de fortificação do século XIX. Em Monterrey, articularam-se sistemas abaluartados e fortificações de campanha em uma organização estratégica que maximizou a defesa de acessos centrais, como o Cerro del Obispado. Essa leitura possibilita reinterpretar a capacidade construtiva e tática do exército mexicano, contribuindo para uma arqueologia do conflito que valoriza a arquitetura militar como evidência material, cultural e política frente à agressão estrangeira.

O artigo de José Antonio Motilla Chávez e Andrés Raymundo Zuccolotto Villalobos apresenta um estudo histórico-arqueológico da Batalha de Ahualulco (1858), episódio central da Guerra da Reforma. Por meio da combinação de fontes documentais, análise computacional de redes históricas e explorações espaciais do terreno, os autores oferecem uma leitura crítica do enfrentamento, questionando narrativas tradicionais. O trabalho destaca o papel estratégico do Cerro Divisadero no desenrolar da batalha e demonstra como o relevo influenciou decisivamente as decisões táticas de ambos os lados. Esta investigação constitui um aporte significativo para a arqueologia dos campos de batalha no México, ao integrar ferramentas metodológicas inovadoras com um enfoque transdisciplinar para reinterpretar um dos episódios mais importantes e menos estudados do conflito liberal-conservador do século XIX.

Por sua vez, o artigo de Francisco Montoya Mar e Maby Medrano Enríquez analisa a tomada de Torreón em 1914 sob a perspectiva da arqueologia de campos de batalha. Com base em estudo detalhado de fontes documentais, relatórios militares, registros materiais de artilharia e análise do espaço urbano contemporâneo, os autores reconstroem detalhadamente a sequência dos acontecimentos, a disposição tática das tropas e o papel determinante da artilharia no desenvolvimento do confronto. Além disso, refletem sobre os processos de esquecimento e de reapropriação da memória revolucionária no norte do México, advertindo sobre os impactos do crescimento urbano na perda de evidências materiais, o que dificulta a reconstrução arqueológica e histórica desses eventos.

Em conjunto, os trabalhos que compõem este dossiê ilustram as possibilidades analíticas e críticas de uma arqueologia histórica do conflito, que não se limita ao registro de vestígios do passado, mas questiona os acontecimentos bélicos a partir das evidências inscritas no território, na arquitetura e nos objetos. A partir de diferentes cenários e temporalidades, tais investigações demonstram como a guerra transforma o espaço, produz dispositivos materiais de controle ou defesa e deixa marcas que podem ser recuperadas, reinterpretadas e discutidas no presente. Ao fazê-lo, os artigos aqui reunidos contribuem para desconstruir narrativas hegemônicas, visibilizar memórias silenciadas e levantar questões urgentes acerca das formas pelas quais construimos conhecimento sobre o passado marcado pela violência.

Do mesmo modo, este dossiê reflete um esforço coletivo para consolidar linhas de investigação colaborativas, transdisciplinares e metodologicamente rigorosas no campo da arqueologia histórica no México. Esses trabalhos articulam saberes provenientes da arqueologia, da história, da antropologia, da geografia e das ciências computacionais, promovendo o diálogo entre escalas locais, regionais e nacionais na interpretação do passado do país.

Agradecemos ao Comitê Editorial da Revista de Arqueología Histórica Argentina y Latinoamericana por acolher esta proposta, bem como às autoras e autores por sua generosidade e compromisso com o processo editorial. Confiamos que este dossiê contribua para o fortalecimento do campo da arqueologia histórica na América Latina e para a consolidação de uma comunidade crítica que reflita, a partir da materialidade, sobre as formas assumidas pela violência em nossa história e sobre as memórias que tais formas ainda disputam.

Pamela Jiménez Vargas
Editora invitada
Instituto de Investigaciones Antropológicas
Universidad Nacional Autónoma de México
E-mail: pamela.jimenez@colmex.mx
https://orcid.org/0000-0002-8443-4361

Jorge M. Herrera Tovar
Editor invitado
Instituto de Investigaciones Antropológicas
Universidad Nacional Autónoma de México
E-mail: sanjorgeyeldragon@unam.mx
https://orcid.org/0009-0001-2189-0263

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